Estudo inédito descobre dunas no Submédio São Francisco e pode ajudar a predizer cenários climáticos futuros

15/02/2022

  As dunas são colinas de areia que se formaram a partir da ação do vento (SUGUIO, 1998). As dunas costeiras ocorrem nas margens de mares e as continentais podem aparecer em ambientes desérticos e nas margens de rios.

      As dunas continentais estão presentes em diversas regiões do Brasil: na bacia hidrográfica do rio Amazonas ao longo do rio Amazonas e do rio Negro; nos setores médio e submédio da bacia do rio São Francisco; na região do Pantanal abarcando o rio Taquari e na bacia do rio Paraná mais especificamente em Mato Grosso. (ASSINE E SOARES, 2004; TRIPALDI E ZÁRATE, 2016).

     Muitas dessas dunas foram descobertas na década de 50 do século passado. É o caso das feições localizadas na região do médio São Francisco, discutidas na pesquisa de Barreto em 1996. O setor submédio do São Francisco ainda é pouco conhecido e explorado pela comunidade acadêmica. É o caso das dunas que abrangem o município de Rodelas, na Bahia (AB’SABER, 2006; BARRETO, 1996).

       Este sistema de dunas é constituído de dois campos principais, o campo de Surubabel, localizado do lado esquerdo da figura abaixo, com 6,5km² de área e o campo de Tapera, posicionado à direita da imagem, com 3,3km² de área. Além de algumas dunas isoladas de menor extensão presentes ao longo da margem esquerda do canal. O município de Rodelas está localizado no norte da Bahia e faz fronteira com Pernambuco. Fica a cerca de 110km de Paulo Afonso e a 560km de Salvador.

Figura 1 – Mapa de localização das dunas do submédio São Francisco.

Fonte: Autora, 2022.

Tais dunas foram formadas em algum momento do Quaternário Superior, últimos 2,5 milhões de anos. Para os pesquisadores, funcionam como um proxy, uma ferramenta que preserva as características ambientais em que foi constituída e assim proporciona a interpretação de condições climáticas do passado. Considerando que o clima da Terra é cíclico e que vem passando por intensas oscilações desde o início do Quaternário, torna-se crucial buscar compreender as possíveis causas dessas mudanças, além de tentar predizer cenários climáticos futuros.

       O clima semiárido presente na região favorece a expansão das dunas. Isso porque para a formação das feições é necessária a presença de sedimentos inconsolidados que serão transportados pelo vento com maior facilidade em áreas de solo pouco úmido e com vegetação escassa ou sem cobertura vegetal. Quando ocorre uma mudança climática e o clima deixa de ser árido ou semiárido e passa a ser úmido ocorre o crescimento da vegetação e a estabilização destes depósitos de areia. Já em um cenário oposto, as dunas tendem a perder a vegetação e passam a ser móveis.

       Os dois campos de dunas estão divididos em três setores cada. O setor plano mais próximo ao canal principal do rio e de menor extensão atua como a área de aporte de sedimentos para a formação das dunas. É a planície flúvio-eólica (Figura 2, C). Em seguida, ocorre o setor das dunas ativas ou móveis com vegetação em sua base (Figura 2, A) e posteriormente, mais distante da margem do rio, está o lençol de areia com a presença de vegetação. O lençol de areia funciona como um manto de areia mais ou menos plano que está estabilizado e pode representar uma área que anteriormente recebia maior influência da ação eólica (Figura 2, B).

      Ocorre na área a predominância de dunas parabólicas em formatado de “U” com braços parcialmente sustentados pela vegetação, algumas têm mais de 20m de altura (Figura 3, A). Observa-se também a presença de blowouts ou bacias de deflação com o aparecimento do lençol freático. Essas depressões são áreas de formato semicircular onde o vento circula retirando os sedimentos mais finos e os levando para serem depositados na duna à frente (Figura 3, B).

       A área em discussão possui grande potencial turístico. A beleza cênica proporcionada pela visão de sucessivos morros de areia com coloração distinta aliada a imensidão do rio São Francisco permite que o local funcione como um oásis em pleno sertão nordestino. Foram essas características ambientais diferenciadas que permitiram e incentivaram a ocupação de grupos pré-coloniais na região há pelos menos três mil anos. No setor das dunas foram encontrados alguns sítios arqueológicos com cerâmica e material lítico lascado, além de amostras de carvão de fogueiras com idade de 810 ± 150 e 814 ± 61 anos AP (ETCHEVARNE, 2002).

       Por fim, o sistema de dunas do submédio São Francisco representa um ambiente complexo com uma importância paleoambiental, arqueológica e geomorfológica imensa. É uma área carente de estudos que propiciem a obtenção de mais dados sobre o clima, o relevo, a fauna, a flora e sobre os recursos hídricos locais. Para que a população local preserve e cuide deste espaço é necessário que ela o conheça, pois sem informação é difícil existir valorização.

Fotos: Autora.

Figura 2 Setores do campo de dunas de Tapera. (A) duna parabólica ativa, (B) lençol de areia com vegetação, (C) planície flúvio-eólica.

Fotos: Autora.

Referências bibliográficas

AB’SABER, A. O paleo deserto de Xique-Xique. Estudos Avançados, v.20 (56), 2006, 301-308.

ASSINE, M.L.; SOARES, P.C. Quaternary of the Pantanal, west-central Brazil. Quaternary International. v.114 (1), (2004) 23-34. doi:10.1016/S1040-6182(03)00039-9

BARRETO, A. M. F. Interpretação paleoambiental do sistema de dunas fixadas no médio rio São Francisco, Bahia. Tese (Doutorado em Geociências) -Universidade de São Paulo, 1996.

ETCHEVARNE, C. Ambiente e ocupação humana em uma região do sub-médio São Francisco, Bahia. Clio Arqueológica, n. 15, 2002, 61-88.
SUGUIO, K. 1998. Dicionário de geologia sedimentar e áreas afins. Rio de Janeiro, Bertrand Brasil, 1998.

TRIPALDI, A.; ZÁRATE, M.A. A review of Late Quaternary inland dune systems of South America east of the Andes, Quaternary International, v.410, (2016), 96-110.