BioGovernança para uma Economia Regeneradora

11/01/2022

O Brasil, a humanidade e o planeta estão muito doentes. Desmatamentos, queimadas, gases-estufa, mudanças climáticas, pandemia, desemprego, misérias, violências, ignorâncias e degradação política são graves sinais de falência múltipla de órgãos. 

Inúmeras crises interligadas e crônicas indicam que o modelo civilizatório que nos trouxe até aqui não nos garante um futuro promissor. É urgente mudar paradigmas: sair da energia fóssil para as fontes renováveis; desenvolver a bioeconomia com florestas vivas e comunidades protegidas; interconectar dimensões sociais, ambientais e econômicas das políticas públicas com planejamento sistêmico; saltar da produção linear para cadeias circulares, com lixo zero, integrando processos industriais com os ciclos biogeoquímicos naturais.

O Brasil, a humanidade e o planeta estão muito doentes. Desmatamentos, queimadas, gases-estufa, mudanças climáticas, pandemia, desemprego, misérias, violências, ignorâncias e degradação política são graves sinais de falência múltipla de órgãos.  

Inúmeras crises interligadas e crônicas indicam que o modelo civilizatório que nos trouxe até aqui não nos garante um futuro promissor. Portanto, é urgente mudar paradigmas: sair da energia fóssil para as fontes renováveis; desenvolver a bioeconomia com florestas vivas, rios saudáveis e comunidades protegidas;interconectar dimensões sociais, ambientais e econômicas das políticas públicas com planejamento sistêmico; saltar da produção linear, geradora de resíduos poluidores, para cadeias circulares, com lixo zero, integrando processos industriais e agropecuários com os ciclos biogeoquímicos naturais. 

Impulsionar regeneração socioambiental e descarbonização, com processos, tecnologias e energias limpas – e reduzir desigualdades com capacitação para empregos verdes, são formas sustentáveis e inclusivas de reativar a economia e superar as complexas crises atuais, como a hidroenergética (rios secos sem gerar energia nas hidrelétricas), que já chegou na conta de luz, elevou a poluição das caras termelétricas e ressuscitou a inflação e o risco de apagões.

Avançando nesse rumo, em 2021 articulamos diversos encontros internacionais da coalizão Governadores Pelo Clima (25 governadores em defesa de políticas climáticas) e do Projeto HidroSinergia (que propõe políticas interconectadas de energia, água, reflorestamento e inclusão). Ambas iniciativas do CBC – Centro Brasil no Clima em parceria com iCS – Instituto Clima e Sociedade, GIZ – Agência Alemã de Cooperação Internacional e União Europeia, no âmbito das Parcerias Estratégicas para a Implementação do Acordo de Paris (SPIPA) com participação ativa de governadores, secretários de meio ambiente, especialistas e lideranças de vários movimentos socioambientais.

O HidroSinergia articula parcerias para apoiar 4 eixos interligados: 

(1) Expansão das energias renováveis, fortalecendo a economia do semiárido (usinas solares e eólicas são indústrias sem água); 

(2) Reflorestamento e regeneração hidroambiental do São Francisco, aumentando segurança hídrica (com mais energia solar e eólica as hidrelétricas ficam em reserva, acumulando água na bacia); 

(3) Desenvolvimento da cadeia produtiva do Hidrogênio Verde para substituir combustíveis fósseis (o NE reúne excelentes condições para produção, aplicação e exportação desse combustível, obtido na separação do H2 do O da água, usando energia renovável, e que emite apenas vapor d’água em vez de poluentes); 

(4) Redução de desigualdades, planejando capacitações para acesso a empregos verdes no interior. Os encontros discutiram a construção de um plano colaborativo que envolve os 11 estados do semiárido (NE + ES e MG). 

COMO REIMAGINAR O FUTURO

Para reinventar a sustentabilidade do Planeta é essencial formular soluções criativas em 6 eixos propulsores: 

(1) Integrar conhecimentos (mapear e conectar inovações e tecnologias multissetoriais); 

(2) Criar interações desburocratizadas, flexíveis e digitalizadas, com modelos transparentes de parcerias entre órgãos públicos, empresas privadas, ONGs e academia; 

(3) Políticas Públicas interconectadas e sistêmicas para impulsionar negócios sustentáveis e inclusivos em todos os lugares e setores;

(4) Leque de fontes de financiamento para atender amplo espectro de projetos (mapa de orientação sobre canais financeiros disponíveis para cada setor); 

(5) Formação profissional para a sustentabilidade e gestores com visão multidisciplinar; 

(6) Instrumentos de planejamento e gestão sistêmica – Novas ferramentas digitais que facilitem gerenciamentos integrados e simplifiquem tarefas complexas (encadeando processos naturais com rotinas produtivas industriais e uso de energias renováveis).

Para reimaginar o futuro, precisamos mudar paradigmas: saltar do linear (que quebra os ciclos naturais e gera lixo) para o circular (com ecoeficiência e reciclagem); do mecânico (máquinas dispersas) para o sistêmico (organismos vivos); do “ou” (excludente) para o “e” (inclusivo); do individual (egocêntrico e frágil) para o compartilhado (colaborativo e denso); do combustível fóssil para as energias renováveis e das posturas intransigentes para atitudes abertas, tolerantes e criativas. 

O surgimento e a longa evolução da vida na biosfera foram processos muito mais impulsionados por relações simbióticas, colaborativas e sinérgicas do que por movimentos caóticos e destrutivos. 

Essa dádiva da natureza é a melhor inspiração para orientar novos caminhos. Hora de reinvenções interconectadas e com máxima sinergia.

SINERGIA PARA A SUSTENTABILIDADE

Para reverter poluições, mudanças climáticas e o esgotamento de recursos naturais é fundamental inventar rapidamente um sistema de governança com visão sistêmica e redes circulares, que possibilite interconectar conhecimentos científicos (usando bioinformática);  gestão de bens comuns (energias e ecossistemas da biosfera); processos sócioeconômicos (agroindustrialização, mercados, educação, empregos) e administração pública (política, democracia, estado) para obter um modelo de desenvolvimento justo e efetivamente sustentável. 

Ou seja, criar um novo modelo de planejamento multiconectado, com gestão inteligente, integrando governos, empresas, academia e ONGs, usando redes digitais e o melhor conhecimento científico, para acelerar a evolução sustentável da sociedade. 

Parece complicado, mas, na verdade, difícil, caro, doloroso e quase impossível será consertar os estragos se não mudarmos imediatamente os velhos modelos degradadores. 

O movimento HidroSinergia considera que praticar sustentabilidade é entrelaçar harmoniosamente processos artificiais da economia e o uso de recursos naturais com os ciclos biogeoquímicos do planeta, encaixando infraestrutura, produção e consumo nos limites dos fluxos naturais, caminhando no mesmo sentido das forças da vida e não em conflito trágico com nossas bases vitais.  Em síntese, compreende que a maior urgência estratégica é criar novos modelos de Biogovernança. 

Biogovernar é gerenciar múltiplos processos sociais-culturais-econômicos-políticos-ambientais, com visão holística, em plena sintonia com a conservação da vida planetária. Fomentar uma Bioeconomia é construir processos econômicos (agroflorestais, energéticos, hídricos, logísticos e industriais) integrados com resiliências e ciclos dos ecossistemas. É por esta razão que o HidroSinergia trabalha com o propósito de impulsionar uma nova economia regeneradora do tecido social e ambiental. 

Sérgio Xavier é Coordenador dos Projetos Governadores pelo Clima e HidroSinergia, no Centro Brasil no Clima – CBC e ex-secretário de Meio Ambiente e Sustentabilidade de Pernambuco.